
está escuro, frio, empoeirado. vazio, sinistro, um autêntico túmulo.sento-me contra uma parede lisa e esguia. depressa a minha mente leva-me a outra dimensão, e todo o espaço se torna claro e desfocado. o cenário é tão real quanto o irreal o permite. a tentação de me aventurar por lá prende-me à parede. algo como o sub-consciente alerta-me para os perigos que aquele lugar pode conter. nada é seguro, o todo contrasta com o nada. «aquele lugar» está cheio de nada,constantemente passam imagens à velocidade dum trovão,a cada segundo. imagens que, curiosamente têm a ver comigo, só comigo e sobre mim. mantenho os olhos arregalados. não me tento a pisca-los sequer. afundo-me num turbilhão de sentimentos, que se tornam mais fisicos que emocionais. as lágrimas começam a cair velozmente até ao chão, a saudade aperta-me, a nostálgia bate-me, a felicidade abraça-me, o amor invade-me. rodeiam-me como cinco irmãos se protegem arduamente, onde eu sou o lider central. eles afastam o medo e a angústia, afastam o sofrimento e a solidão. convidam a paz a entrar. e esta, sempre serena, manda embora os «indesejaveis» e dirige-se até mim. damos todos as mãos,o silêncio sopra na nossa direcção fazendo um barulho agradável. nenhum de nós fala. as imagens continuam a passar. contêm todos os momentos vividos e guardados nos confins da minha memória. momentos que esqueci por breves segundos numa vida duma hora. actos insignificantes que me fizeram ganhar o dia, fotografias que mostram dias de praia e sol,de campo e chuva. revejo cenas com os que amo, revivo acções de orgulho e triunfo, de carinho e desabafos. sinto-me feliz, sinto-me autêntica. o lugar torna-se tão seguro e acolhedor. não me quero ir embora, não quero quebrar o ciclo e sujeitar-me à preseça das criaturas «indesejáveis». sinto-me serena e vibrante. como que a pessoa mais feliz do mundo. e capaz de tudo. as imagens não param de circular. a paz não me larga a mão. contudo, eu tenho que ir. por mais que deseje permanecer, o lugar é instável e não me pertence. porém, sei que não foi o ultimo episodio. sinto que voltarei, e por isso não me preocupo. despeço-me deles, com emoção. antes de partir, a paz segreda-me ao ouvido e dá-me uma pulseira branca. diz-me: "nunca te irei deixar, apenas tens que descobrir onde me encontrar", e, sem tempo de reagir, retorno ao local inicial. olho à minha volta. e de repente o sotão deixa de parecer um local tão assombrado. vejo a pulseira no meu pulso. estou em paz.
parece que te encontrei.